CAPELA

 

 A Venerável Ordem Terceira de S. Francisco tem a sua capela, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, cuja imagem estava colocada, em tempos idos, no único altar ali existente: é o Abade de Tagilde quem o afirma [[1]]. Nos documentos incluídos no inventário do cartório da Ordem, feito em 30 de Maio de 1834, encontram-se as referências mais antigas à Capela dos Terceiros e têm a data de 1746.

 

A edificação da Capela deve ter sido iniciada em 1750, constando da acta de 25 de Junho de 1752 que a obra de pedraria foi adjudicada a António da Cunha Correia Vale por 4 mil cruzados. Em 6 de Julho de 1753, sinal de que a obra já estava concluída, foi feito o pagamento integral da obra.

                A 4 de Julho 1770, os mesários, insatisfeitos com o trabalho ornado pelos seus antecessores, decidiram “reformar o risco do portal da capela e abrir uns óculos sobre a cornija”, obra que foi entregue em 17 de Outubro desse ano a Pedro Lourenço, e dada por concluída em 1774, como se depreende de uma deliberação de 19 de Maio desse ano.

 

EXTERIOR – A Capela tem fachada de estilo joanino, ao gosto italiano. A porta principal, em granito, de grande elegância, apresenta-se em dois registos, separados por uma cornija que se desenvolve horizontalmente. No registo inferior, está o majestoso portal de Pedro Lourenço, enquadrado por pilares fasciculados com duas colunas toscanas, e sobre a porta, emoldurado de ornatos, vê-se esculpido o brasão da Ordem Franciscana. Sobre ele, inserto num frontão ondulado cortado, abre-se um janelão com coroamento que assegura a iluminação do interior do coro. No registo superior, ergue-se uma peanha com a imagem de granito da Rainha Santa Isabel, ladeada por dois pilares, estrutura que termina com um frontão quebrado, com pináculos e uma cruz ao centro.

Todos os espaços da frontaria da capela que não se encontram ocupados com elementos de granito, são decorados com azulejos azuis e brancos de fins do século XIX, mandados colocar por deliberação de 4 de Setembro de 1860, “no gosto dos azulejos da frente do hospital”. Inicialmente, esses azulejos não abrangiam toda a superfície disponível, pois a parte inferior era revestida de placas de ardósia: placas que foram recentemente removidas e substituídas por azulejos idênticos.

A parede lateral da capela, em frente ao portal da igreja de S. Francisco, não foi revestida de azulejos. Nela se abre uma segunda porta, “travessa para huma alpendrada, que divide a Capella da Igreja de São Francisco”, no dizer da “Corografia”. Essa porta ostenta uma decoração do barroco final, abrindo-se ao seu lado uma janela para iluminação do interior da capela.

 

INTERIOR - Um arco cruzeiro separa o corpo da igreja do altar-mor, cuja talha foi executada em 1782 por José António da Cunha. O trono, hoje visível, esteve durante muitos anos oculto por um retábulo representando Nossa Senhora da Conceição, pintura de mérito de autor desconhecido do século XIX. Esse retábulo, de grandes dimensões, depois de devidamente restaurado por mãos competentes, foi colocado no coro-alto da Igreja conventual, como atrás se anotou.

Ao lado do altar, encontra-se uma bela imagem em tamanho natural da Imaculada Conceição, padroeira da capela, datada de 1904, obra de João de Afonseca Lapa, santeiro com oficina em Vila Nova de Gaia, notável pela elegância e realismo das suas obras, autor de dezenas de imagens espalhadas por todo o país, entre as quais algumas das figuras dos Passos do Bom Jesus do Monte, em Braga.

Até ao princípio deste século, venerava-se uma bela imagem de Nossa Senhora da Conceição que hoje está no primeiro altar, lado da Epístola, da igreja de S. Francisco. Para lá se enviou quando a Ordem recebeu a escultura de Afonseca Lapa.

Ladeando o altar-mor existem duas boas imagens de madeira que, pelo estilo, devem datar de fins do século XVII ou princípios do século XVIII. Representam S. Francisco e a Rainha Santa Isabel, vestida com o hábito de terceira franciscana.

A capela teve, de início, um púlpito amovível que causava embaraços porque ocupava bastante espaço numa capela de tão discretas dimensões. Por isso, em 4 de Maio de 1834, foi mandado fazer um púlpito fixo: o que actualmente existe.

A capela tem dois altares laterais, despertando maior atenção o do lado da epístola, onde se veneram as imagens do Sagrado Coração de Maria e de Nossa Senhora da Boa Morte, esta em banqueta envidraçada. A imagem do Coração de Maria, apesar de mal restaurada, é notável pela doçura das suas linhas: é obra do famoso escultor romano, Giuseppi Berardi, o autor da imagem de S. Francisco que se encontra na Igreja conventual. Consta da acta da Mesa de 22 de Setembro de 1882 que essa escultura foi recebida de um anónimo em troca de uma outra que mais tarde regressou à Ordem Terceira. A recepção da imagem do Sagrado Coração de Maria foi comemorada em 24 do mesmo mês e foi entronizada no dia 8 de Dezembro desse ano, festa da Imaculada Conceição. Segundo informação do Padre Ferreira CALDAS, foi benzida pelo papa Leão XIII.

No altar do lado do evangelho esteve inicialmente colocada a imagem de Santa Filomena. Com a chegada da imagem da Senhora das Dores, de Soares dos Reis, escultura mandada fazer por António Peixoto de Matos Chaves em cumprimento de um voto de sua mãe, esta imagem passou a ocupar o lugar da imagem de Santa Filomena, que foi deslocada para um nicho do mesmo lado: hoje encontra-se na Sacristia-Museu da Capela. A imagem de Nossa Senhora das Dores encontra-se hoje, como já se disse, no transepto da igreja conventual.

Nas pilastras das paredes laterais, sobre mísulas, estão três pares de esculturas que representam: as da frente, os apóstolos S. Pedro e S. Paulo; as do meio, os bispos franciscanos S. Luís e S. Boaventura; as do fundo, os mártires franciscanos, Santo Adjuto (irmão leigo, um dos Santos Mártires de Marrocos) e S. Pedro Mártir.

No coro com balaustrada, há um órgão fabricado na segunda metade do século XVIII pelo organeiro vimaranense Luís António de Carvalho e adquirido por 350$000 por deliberação de 14 de Abril de 1818. É um órgão pequeno, que se podia deslocar como se se tratasse de uma peça de mobiliário. Foi restaurado recentemente.

Graças ao financiamento do Ministro da Ordem, o benemérito Comendador Cristóvão José Fernandes e Silva, o interior da capela foi revestido de azulejos emblemáticos, assim chamados porque a sua função decorativa é assegurada essencialmente por emblemas que se repetem: neste caso, o brasão da Ordem, o monograma da Virgem Maria e uma cruz com um cálice cruzados. Foram executados na Fábrica do Vale da Piedade, em Vila Nova de Gaia.



[1] - GUIMARÃES, João Gomes de Oliveira (Abade de Tagilde) – Guimarães e Santa Maria, p. 34