Estabelecimento

10-08-2010 15:06

 

 A mais antiga referência ao seu aspecto, embora breve, data de 1656 e encontra-se na “História Seráfica”: “He este templo d’hüa naue, & com demazia largo: mas fabricado nesta forma pera que ficando desabafado, podesse recolher parte da gente, por ser tanta nos officios diuinos, que tambem não cabia no alpëdre, posto que he muito grande. Era estranha a sua architectura por fora, porque por muito mais subia o espigão do telhado, do que as paredes se leuantauão da terra, & como ficaua ingreme, em caindo ou quebrando algum dos telhães rasos de que estaua coberto, com muita difficuldade tornauão a refirmallo. Pelo que as injurias do tempo o chagarão a estado, que sem impedir a chuua, mais parecia hum cadauer ruinoso, que corpo de edificio viuo com forma artificial”. Refere o mesmo cronista que em 1627, era tal o estado de degradação do templo que obrigou o guardião da Ordem, Frei Manuel de Jesus, a encarar o seu restauro, iniciativa a que a generosidade dos fiéis respondeu da melhor maneira. Foi um dos muitos restauros que se prolongaram até ao século XX.

Esta informação é muito esclarecedora: por um lado, constata-se que, na origem (ou pelo menos a meados do século XVII), tinha a igreja paredes laterais desproporcionadamente baixas quando comparadas com a altura da nave, dando origem a um telhado desmesuradamente inclinado: a tal ponto que os operários só muito dificilmente lá podiam ir para as necessárias reparações. A parede exterior da igreja não teria, pois, quatro janelões idênticos aos quatro laterais da ábside: a menos, evidentemente, que, em alterações introduzidas anteriormente, fosse rebaixada a parede da igreja com a consequente destruição dos janelões, acentuando desmedidamente o declive do telhado. Por outro lado, ficamos a saber que a igreja dispunha de um al-pendre que se enchia, e não bastava, durante a realização dos ofícios divinos. Esse alpendre existia ainda nos princípios do século XVIII, diz a “Corografia”      

 

 

FACHADA - A fachada da igreja divide-se em três corpos separados entre si por dois contrafortes elegantes, chanfrados nas extremidades – foram retiradas as pirâmides que ainda não há muito tempo os coroavam. Um óculo de pequenas dimensões ocupa a parte superior da parede, deixando um espaço que outrora foi ocupado por um janelão que Frei Manuel da ESPERANÇA diz ter sido aberto num restauro iniciado em 1627. Esse janelão sofreu várias vicissitudes ao longo dos séculos, como se comprova pelas fotografias incluídas em “Guimarães do Passado e do Presente: na mais antiga, datada de 1865/70, aparece uma janela moderna, quadrangular e esguia; noutra, de 1900, aparece uma janela “neogótica” mainelada que ainda sobrevivia em 1958 por altura do restauro que a eliminou.

Ladeada por contrafortes que substituíram os pilares adoçados que o mesmo restauro sacrificou, está a porta principal de estilo gótico joanino, sem tímpano. O extradorso do seu arco é guarnecido de três arquivoltas apoiadas em colunas de base ática, capitéis decorados e ábaco destacado, a que se soma um novo par de colunas que, no interior, emoldura a porta.

Das arquivoltas, apenas a primeira e a terceira se apresentam ornamentadas: a mais ampla com uma fiada de grânulos, sobrevivência do românico (o que permite supor que pertenceu ao convento mandado de-molir em 1322 por D.Dinis), a intermédia com uma franja de flores de lis. No que se refere aos capitéis, qua-tro deles apresentam motivos vegetais estilizados e os restantes mostram decoração mais interessante. Assim, os capitéis das colunas mais avançadas, historiados, representam, segundo se julga, cenas da vida de S.Fran-cisco: à direita, o Santo pregando aos passarinhos, tendo ao pé uma ovelha, animal que o Santo Patriarca amava pela sua docilidade; à esquerda, o Santo ajudando um enfermo, símbolo da caridade cristã. Além destes capitéis há dois outros de mais difícil interpretação: um, à direita, representando uma cabeça humana envolta em folhagem (?); outro, à esquerda, mostrando, afrontados, dois monstros híbridos, com cabeça de símio e corpo de leão.

 

ÁBSIDE - Primitivamente, a ábside, com os três janelões na cabeceira e mais dois pares nas paredes laterais, iluminava com os seus vitrais a capela-mor da igreja. Os três janelões que se situavam no presbitério, ou seja, no topo da capela-mor, estão hoje ocultos pelo retábulo barroco, pelo que só poderão ser vistos do exterior. Segundo Maria Dolores SAMPEDRO, a avaliar pelas diferenças de estilo, estes três janelões, separados por contrafortes, terão sido construídos pouco depois do início da construção do convento neste local, imposta por D.Dinis. Como o Padre CALDAS observou, dado que a abertura destas janelas desciam muito abaixo, o primitivo altar-mor não podia suportar sobre si mais do que a banqueta.

Eram mainelados e dotados de vitrais porque, a quando do último restauro, foram encontrados alguns vestígios da vidraria no trilóbulo de um dos janelões.

Os outros dois pares de janelões da capela-mor, diferentes dos anteriores, foram abertos um século depois por mandado de D.Constança de Noronha, casada em segundas núpcias com D.Afonso, primeiro Duque de Bragança, filho natural de D.João I, entre 1420, ano do seu casamento (ou, mais provavelmente, depois de 1461, ano em que enviuvou) e 1480, ano da sua morte.

 

INTERIOR

Esta igreja já teria inicialmente a disposição de uma cruz latina, com capela-mor, transepto e corpo da igreja.

 

CAPELA-MOR - Da capela-mor gótica já se disse o suficiente no que toca à ábside, quando vista do exterior: observando-a do interior, mostra os efeitos provocados pelas reconstruções havidas nos séculos que se seguiram: a sua cabeceira semi-hexagonal foi tapada por um sumptuoso retábulo de madeira doirada; e dois janelões do corpo da capela-mor foram sacrificados pela construção das capelas laterais ou absidíolos.

A capela-mor é coroada por uma elegante abóbada polinervada dividida em dois tramos. No fecho da abóbada que se encontra mais próximo do transepto, vêem-se as armas reais: um escudo assente sobre a cruz da Ordem de Avis, encimado pela coroa real. É o brasão de armas de D. João I, antes de colocar a Cruz de Avis dentro do escudo, tendo torres na bordadura, em vez de castelos. Segue-se um arco divisório que se-para os tramos, sendo a sua chave decorada com uma flor rodeada pelo cordão franciscano. A abóbada mais próxima da ábside tem uma chave que recebe os seus arcos e os dos primeiros janelões laterais. Essa chave está parcialmente oculta pelos ornatos que coroam o dossel de talha do retábulo do altar mas, quando iluminada pelo sol, pode distinguir-se nela parte do escudo das armas reais, os braços inferiores da cruz da Ordem de Avis em que assenta o escudo e o hábito de dois anjos que o suportam.

Pedro DIAS descreve a abóbada nos termos seguintes. “o lançamento é perfeito, saindo os cruzeiros e torais de feixes assentes em longas mísulas que descem em forma de colunelos até quase metade da altura das paredes laterais. As molduras são típicas dos bons mestres de início de Quatrocentos, com sequências bem programadas de linhas curvas côncavas e convexas, sem haver já toros a distinguirem-se demasiadamente dos restantes. Capitéis e formas dos respectivos ábacos são do tipo batalhino”.

Nesta capela-mor foi sepultada a primeira Duquesa de Bragança, D.Constança de Noronha, casada com D.Afonso, filho natural do rei D.João I. Quando enviuvou, em 1461, diz Frei Manoel da ESPERANÇA, “professou a regra Terceira de N.P. S.Francisco” e levou uma vida a todos os títulos exemplar, sendo por todos havida como santa. Faleceu a 26 de Janeiro de 1480, e por sua expressa vontade foi enterrada nesta capela-mor, “onde estaua o coro, entre a estante delle & os degraos do altar. Mas pelas mudanças deste se transferio a sepultura pera o seu presbiterio da parte da epístola no qual á face da terra apparece só a pedra, com que estava coberto; & nella se ve a sua figura com habito, cordão, & toalha sobqueixada ao modo de Terceira, & um livro aberto entre as mãos em sinal da devoção [...] numa taboa junto della este disticho: ALFONSI CONJUX DUCIS HOC CONSTANÇA NORONHA, REGIA PROGENIES, CONDITUR IN TUMULO”. Quer dizer «D.Constança de Noronha, descendente de Reis, & mulher do Duque, Dom Afonso jaz escondida neste túmulo»”.

Era a dita pedra movedissa” – diz CRAESBEECK - por se correr para debaixo dos degraos da capella parte do corpo esculpido na dita pedra; de modo que, quando se corria com ella, se podia tomar da terra da sepultura, e alguma de que os fieis christãos trasião en paninhos ao pescoço para febres e outras infirmidades; e depois de convaleçidos os tornavão a oferecer ã sepultura e penduravão em hum ferro, que estava posto para isso na dita sepultura” .

Era tal a fama da sua santidade que levou a que, em 23 de Outubro de 1488, por insistência do guardião e frades do convento, o juiz ordinário de Guimarães procedesse a uma inquirição testemunhal em que se provou serem verdadeiros os milagres atribuídos à intercessão de D.Constança de Noronha, sinal de que se dera início ao processo da sua beatificação. O livro onde foram exarados esses autos foi descoberto em 1621, e ainda existia no cartório da Ordem em 30 de Maio de 1834 porque foi arrolado no inventário do cartório feito nessa data na sequência da extinção das ordens religiosas.

As alterações que com o andar dos séculos foram introduzidas no templo levaram a que se perdesse a ideia exacta do local onde se encontra o túmulo da insigne Duquesa. Algumas desacertadas medidas são co-nhecidas. Em 22 de Janeiro de 1744, a câmara da vila deu parecer favorável à concessão de uma esmola de 400$000 réis das sobras dos bens de raiz, para que os frades franciscanos reedificassem a capela-mor da sua igreja, a fim de nela recolocar o corpo da santa Duquesa. Sabe-se que ele foi em tempos colocado debaixo da tribuna, mas hoje, devido às obras da igreja e à insensatez dos homens, não se sabe ao certo onde repousa. O epitáfio perdeu-se, e a pedra tumular, que se encontrava oculta por trás do altar-mor, foi a título precário cedida ao Museu Alberto Sampaio, onde esteve condignamente exposta até regressar ao seu Convento, onde a Duquesa desejou esperar o Juízo Final. Encontra-se hoje na capela lateral do lado do Evangelho.

 

RETÁBULO - O retábulo do altar-mor, de talha doirada, foi encomendado ao mestre entalhador Manuel da Costa de Andrade por escritura celebrada no Porto em 20 de Dezembro de 1743, comprometendo-se o artista “em fazer a obra da tribuna de São Francisco de Guimarães” na forma da planta e apontamentos dados por Miguel Francisco da Silva e obrigando-se a dar a obra “perfeitamente finda e acabada athe dia de Natal do anno que em boa hora há de vir de mil sette centos e corenta e coatro”. O preço ajustado foi de 500$000 réis em dinheiro contado, pagos em três parcelas: no início, no meio e no fim da obra, depois de vista e examinada, devendo os Religiosos fornecer “todas as madeiras capazes, a tempo e horas, e ferros para a sua segurança, e de mais as seis figuras, quatro no trono, e duas nos remates de sima”.

É um retábulo de baldaquino inspirado no retábulo da Sé do Porto; em contrapartida, o esquema do número e distribuição das colunas adoptado neste retábulo deve ter servido de modelo a retábulos do mesmo e de outros autores.

Entre as grossas colunas salomónicas, encontram-se quatro imagens de madeira em tamanho natural, representando, da esquerda para a direita, S.Boaventura (com hábito e cordão franciscanos, a mitra e o livro aberto, atributos que lhe são próprios por ter sido bispo e doutor da igreja), S.Domingos (com o hábito dominicano e com a cruz de dois braços indicativo de fundador de uma Ordem), S.Francisco, fácil de identificar pelos sinais dos estigmas, e Santo António (com o Menino Jesus ao colo). São obra de dois escultores diferentes, pertencendo S.Francisco e S.Domingos a um, e Santo António e S.Boaventura a outro.

 

AZULEJOS

Grandes painéis de azulejos forram a capela-mor e paredes adjacentes do transepto. Não foi possível até hoje datá-los com segurança nem descobrir quem foi seu autor, mas CRAESBEECK já em 1726 os referia, ao dizer que a capela-mor era “toda cuberta de rico azolejo”. Poderemos assim concluir que foram executados em data anterior, confirmando a opinião dos especialistas que os consideram obra de Oliveira Bernardes, executada entre 1720 e 1730.

Poucas composições há em Portugal de tais dimensões, e Joaquim de VASCONCELOS considerou-os mesmo dos melhores existentes no país. Diz-nos Agostinho GUIMARÃES que “são dos mais notáveis do país. A sua monumentalidade, a perfeição do seu desenho, a riqueza da ornamentação, a qualidade técnica do seu fabrico e até o tom da sua cor azul, colocam-nos a um nível que poucos azulejos tiveram entre nós”. Referindo-se aos painéis de maior dimensão, acrescenta: “As cenas desenrolam-se na parte cimeira da pa-rede, mas o tamanho das figuras e a perspectiva estão concebidas de modo que a visão, mesmo em pormenor, não é afectada pela distância e o alto pé-direito”.

Diz o mesmo autor que os azulejos da capela-mor formam quatro painéis dispostos simetricamente: dois ocupando a totalidade dos vãos das ogivas onde outrora se abriam os fenestrões sacrificados pela construção dos absidíolos; outros dois, mais pequenos, ocupando o espaço disponível por baixo dos janelões que subsistem e iluminam a capela-mor.

Todos eles evocam a vida e os milagres de Santo António de Lisboa. Em frente, do lado da Epístola, representam o Milagre da Eucaristia: um jumento dobra os joelhos em adoração perante a Hóstia Consagrada levada por Santo António, ante o olhar assombrado do dono do animal que havia negado a presença real de Cristo na Eucaristia; e, outro grande painel representa o conhecido episódio de Santo António pregando aos peixes.

Na base da janela do lado do Evangelho, um painel de menores dimensões representa Santo António curando um homem a quem tinham amputado uma perna, mas o painel maior reveste-se de maior interesse porque se trata de um episódio verificado em Guimarães pouco antes do fabrico dos azulejos: trata-se do Milagre do Ladrão, ocorrido em Guimarães em 1710. O grande monógrafo, Abade de Tagilde, contou-a em 1895 nos termos seguintes:

Na madrugada de terça-feira 29 de Abril de 1710, Manuel Dias, natural do Bispado de Coimbra, tentou penetrar na igreja pela fresta correspondente ao altar do Santo a qual, resguardada apenas por ferros delgados e já gastos pelo tempo e por uma grade de arame, fornecia fácil entrada. Tendo despegado a rede, esta o precipitou no chão, ficando com uma perna quebrada e aí foi encontrado ao romper do dia por umas mulheres, que chamaram os frades a quem ele confessou que fora castigado por Santo António. Levado o ladrão para a capela-mor e depois para o púlpito, afim de satisfazer a curiosidade e também para o subtrair á sanha da multidão, diz Fr. Fernando da Soledade, que S.to António deu a entender que estava indignado com o crime, porque do braço direito da sua imagem saiu tal corrente de água que, molhando todas as petições e fitas que as prendiam ao cordão, ensopou grande parte da toalha do altar e mais adiante correra, se logo a devoção não tratara de aproveitar nos lenços e outras prendas estes milagrosos orvalhos, cujas relíquias obraram prodígios. O juiz de fora mandou lavrar um auto deste facto, que foi pomposamente celebrado pelos moradores de Guimarães nos dias imediatos. Na quarta iluminou-se toda a vila, na quinta celebrou-se uma solene festividade em S. Francisco, na sexta, sábado e domingo continuaram os festejos de cavalaria e touros e no mês de Junho celebrou-se pomposa e grandiosa festa. A notícia de tal acontecimento chegou a todo o reino, e de toda a parte, especialmente do Minho, Douro, Trás-os-Montes e Beira, acudia inumerável multidão de fieis, crescendo a devoção a tal ponto que por aquele tempo não havia «romagem mais célebre nem de mais concurso de povo que a de Santo António de Guimarães, ou de Santo António dos Milagres, cujo título lhe atribuiu o assombro pela cópia deles, que ainda hoje contempla nesta fonte de maravilhas [...]». A grade que pescou o ladrão ainda hoje se conserva no pequeno museu da V.O. Terceira, lendo-se ao fundo dela a inscrição: «Esta he a rede q. S.to Ant.o lançou sobre o ladram Manoel Dias a 28 de abril de 1710». No guarda-vento da igreja existiu até 1887 um quadro a óleo [...] representando este facto”.

Esse quadro ainda existe e está exposto em local adequado na área outrora ocupada pela comunidade.

Pode acrescentar-se que está documentalmente comprovado que o protagonista desta história faleceu no Hospital da Misericórdia de Guimarães a 10 de Junho de 1710, tendo recebido sepultura no adro da igreja de S.Francisco, defronte da porta principal. Para comemorar o acontecimento, todos os anos e até há pouco tempo, a Ordem Terceira celebrava com missa cantada no dia 29 de Abril a “Festa do Milagre do Ladrão”.

  

CAPELAS LATERAIS – Cronologicamente, a primeira das alterações da capela-mor verificou-se com a construção das duas capelas laterais, cujo enxerto é por demais visível: a sua construção afectou irremediavelmente os dois janelões mais próximos do transepto e levou à colocação dos azulejos atrás referidos.

Os arcos dessas capelas são diversos em estilo e em tamanho, medindo 3,47 metros o da capela Norte e apenas 2,82 o da capela Sul. Esta diferença de 65 centímetros prova que – ao contrário do que chegou a ser sugerido elas não vieram da igreja da Colegiada, cuja reconstrução joanina previa certamente uma capela-mor simétrica, com dois absidíolos idênticos e de igual largura.

 

Capela do Senhor Jesus

 

 

À esquerda, está a Capela do Senhor Jesus, também chamada do Senhor Crucificado, com entrada através de um arco muito ligeiramente abatido, coroado, como o da capela do lado oposto, por um dossel de talha de boa traça. No interior está patente o janelão que, do outro lado, foi coberto por um dos grandes painéis de azulejos da capela-mor: vêem-se os dois pisos de vidraria, ficando apenas oculto o óculo trilobulado. Há na capela três arcossólios góticos, dois cavados na parede-norte e o outro na parede adjacente. Na capela tem em lugar de relevo uma expressiva escultura de madeira do século XV, quase de tamanho natural, representando Nossa Senhora da Soledade que, pelo estilo, se assemelha à imagem da Virgem e S. João exposta no Museu Alberto Sampaio, em Guimarães.

Aí se encontra exposta, como já se disse, a pedra tumular de D. Constança de Noronha, duquesa de Bragança, que recentemente regressou do Museu Alberto Sampaio onde, durante décadas, esteve exposta.

Esta capela foi instituída com o morgadio da Azenha, em 1507, por Pedro Álvares de Almada, fidalgo da Casa Real nos reinados de D.João II e D.Manuel, o qual nela foi sepultado. Por essa razão, sobre o ar-co da capela está o brasão dos Azenhas, seus representantes, pintado em granito por forma a dar a ilusão de relevo. No solo, encontram-se outras sepulturas sem epitáfio, uma delas com coroa.

 

Capela de Santa Ana – No lado oposto, encontrava-se uma capela que outrora foi também chamada Capela do Santo Cristo porque era dedicada a Jesus Crucificado. Mais pequena e mais baixa que a do lado do Evangelho, é acessível do transepto por um arco quebrado sob um dossel de talha. Os fechos da abóbada estão decorados com escudos ilegíveis. Diz Torquato de AZEVEDO que a capela era anexa ao morgado do Pinheiro, instituído por Fernão Martins de Almeida, facto que a Corografia Portugueza corrobora mas que CRAESBEECK contraria ao dizer que o seu instituidor foi o seu irmão, João Martins.

Hoje, esta capela, com talha neoclássica, é conhecida pelo nome de Capela de Santa Ana, devido à imagem seiscentista que se venera no seu altar, representando Santa Ana, a Virgem Maria e o Menino Jesus.

 

No lado oposto, encontrava-se uma capela que outrora foi também chamada Capela do Santo Cristo porque era dedicada a Jesus Crucificado. Mais pequena e mais baixa que a do lado do Evangelho, é acessível do transepto por um arco quebrado sob um dossel de talha. Os fechos da abóbada estão decorados com escudos ilegíveis. Diz Torquato de AZEVEDO que a capela era anexa ao morgado do Pinheiro, instituído por Fernão Martins de Almeida, facto que a Corografia Portugueza corrobora mas que CRAESBEECK contraria ao dizer que o seu instituidor foi o seu irmão, João Martins.

Hoje, esta capela, com talha neoclássica, é conhecida pelo nome de Capela de Santa Ana, devido à imagem seiscentista que se venera no seu altar, representando Santa Ana, a Virgem Maria e o Menino Jesus.

  

TRANSEPTO

A parede onde se abrem a capela-mor e os absidíolos está inteiramente coberta de painéis de azulejos que são o prolongamento dos que se encontram na capela-mor: são da mesma data e do mesmo autor. Também eles contam episódios da vida de Santo António, mas não é fácil apreciar a sua riqueza, porque parte deles estão ocultos pela talha que decora o espaço entre os arcos e por cima deles, e outros são pouco visíveis por se encontrarem a grande altura, junto ao teto. Talvez por isso, ainda não foram identificados os episódios aí representados.

Quanto ao teto, foi recentemente pintado em “trompe-l’oeil” com caixotões ornamentados com motivos florais de belo efeito.

 

 

ALTAR DA SENHORA DAS DORES

 

 

 

 

 (antiga Capela do Descendimento) – Hoje, no topo do transepto da parte do Evangelho, encontra-se o altar da Senhora das Dores, com talha de estilo D.Maria. Nele se admira a imagem de Nossa Senhora das Dores, de Soares dos Reis, mandada fazer por António Peixoto de Matos Chaves em cumprimento de um voto de sua mãe. É uma estátua “de vestir, sahiu das mãos do artista representando a Virgem com uma camisa decotada, tão perfeita como qualquer estátua profana que n’aquelle estado se destinasse a logar publico”. Antes de ser colocada neste altar, essa imagem esteve à veneração dos fiéis no altar lateral do lado do Evangelho da Capela da Ordem Terceira.

O altar de talha da Senhora das Dores está inserido numa capela de estilo clássico, de granito, enquadrada por quatro colunas jónicas caneladas, duas de cada lado. Nos seus pedestais podem ver-se duas ins-crições que mostram tratar-se de uma capela funerária datada de 1571, mandada fazer por Simão de Melo, do Conselho de El-Rei para sepultura dos seus pais e avós, como se lê nas respectivas inscrições. Por isso, no frontão que coroa o altar, assente numa cartela decorada com rolos de volutas, está o escudo da família dos Melos: uma doble-cruz acompanhada de seis besantes.

Em épocas passadas, aí foi instituída a Capela do Descendimento e “esta figura tem o seu retabolo em huma pintura antiga, mas bem feita” . A sua administração passou a certa altura para o Conde de Oeiras e Marquês de Pombal, e foi o próprio Marquês de Pombal (não se trata, evidentemente, do famoso ministro de D.José, falecido em 1782, mas de um herdeiro desse título) quem, acedendo a um pedido da Irmandade de S.Gualter, autorizou em 1800 que as relíquias do seu Santo Patrono fossem colocadas nessa capela sobre a banqueta do altar.

  

ALTAR DO SENHOR DA PACIÊNCIA

 

Em frente ao Altar da Senhora das Dores está o Altar do Senhor da Paciência, de talha oitocentista que alberga uma pintura de data mal definida representando Cristo atado à Coluna. Ao seu lado, em cima, há duas pinturas de merecimento: Nossa Senhora do Leite, à esquerda, e S. Francisco, à direita. Debaixo do retábulo admira-se uma miniatura preciosa mostrando o gabinete de trabalho de S. Boaventura no seu gabinete de trabalho. A análise dos móveis miniaturais aí colocados indicam que esta peça teria sido feita em fins do século XVIII.

Este altar insere-se numa capela de arquitectura clássica semelhante à que se encontra em frente, com duas colunas dóricas com caneluras, ostentando no frontão, sobre a imposta, uma lápide onde se lê que foi mandada erguer por Sílvia Francisca. Sobre a lápide encontra-se um escudo em forma de cartela, decorado com rolos de volutas, onde se encontram as armas dos Cunhas e dos Meneses.

Foi esta Sílvia Francisca (quase sempre chamada Francisca Silva ou Francisco Silva, pelos monógrafos antigos) quem mandou erigir o Altar dos Santos Mártires de Marrocos. Assim o declarava o Padre Torquato Peixoto de AZEVEDO em 1692: “Na parede da igreja da parte do sul está a capella dos Santos Martyres de Marrocos, instituida por Francisco da Silva, e esta se mudou com licença do seu administrador An-tonio Corrêa de Sousa Montarroyo para se abrir ali a porta da sachristia”. Esta capela já existia em 16 de Julho de 1632, pois numa escritura desta data referente à constituição de uma outra capela, Catarina da Guerra exigia que ela fosse “do modelo da dos Mártires ou dos Melos” .

 

IMAGENS DOS NICHOS DO TRANSEPTO – No espaço que, no transepto, separa o arco da capela-mor dos arcos das capelas laterais, encontram-se dois nichos de talha dourada rocaille de excelente qualidade, havendo notícia de, em tempos idos, esses espaços terem sido ocupados por capelas.

 

Imagem de Santa Clara 

 

No nicho do lado do Evangelho, onde hoje se encontra a imagem de Santa Clara, esteve nos princípios do século XVII a Capela da Irmandade do Cordão, com a imagem do Senhor do Calvário, sua Mãe e o Evangelista S. João. Nos fins desse século, encontrava-se lá instalada a Irmandade da Senhora da Conceição. Depois, foi aí venerada uma imagem de Nossa Senhora da Expectação (oferecida em 1871 aos devotos de Nossa Senhora da Penha) e a imagem de Santa Cecília, trasladada mais tarde pa-ra o nicho do lado da Epístola.

Imagem de Santa Cecília

 

No nicho do lado da Epístola, venera-se hoje a imagem de Santa Cecília, oferecida por Lucínio Ferreira Trindade. Antes, foi nele colocada a Capela das Chagas de S. Francisco com a imagem de S. João Baptista. Recebeu mais tarde a Capela das Chagas de Cristo, a cargo da Confraria do Cordão, mas esta confraria não parou lá muito tempo pois ainda no século XVIII foi transferida para outro local.

  

NAVE

 O transepto encontra-se actualmente separado do corpo da igreja por um grande arco, sob um dossel de talha de bela factura. Mas nem sempre foi assim. Escreveu o Padre Ferreira CALDAS que “era antigamente esta igreja atravessada por três arcos de pedra grandes, que lhe formavam o cruzeiro, sendo o do meio mais alto. Estes arcos foram apeados para dar lugar ao único, que hoje ali se vê, tendo lugar esta reforma, a mais importante do templo, no ano de 1746...” . Se observarmos o deambulatório que ao nível do coro alto se encosta às paredes laterais do corpo da igreja, podemos ver, ao fundo, a parte dos arcos, hoje cegos, que não foi sacrificada.

A gigantesca nave que chegou aos nossos dias foi construída por ocasião da grande reforma da igreja operada entre 1746 e 1749, e para ela contribuíram generosamente as Irmandades e Confrarias erectas nesta igreja. Diz-nos o Padre Ferreira CALDAS que constava de uma tábua a seguinte inscrição: “No ano de 1746 deu a irmandade aos padres do convento 350$000 réis para o arco de pedra do cruzeiro da igreja do direito que rendeu todo o ouro que o Santo António tinha por guarnição que para isso se teve de vender com autoridade de todos por um termo a fl. 76”.

Pode dizer-se que o grande arco do cruzeiro já estava levantado a 3 de Setembro de 1747, porque o testamento dessa data de D. Margarida d’Affonseca e Andrade faz referência ao lugar donde se subia para o púlpito “antes que se fizesse o novo arco”.

As obras não se ficaram por aí pois, por contrato de 1 de Dezembro de 1748, José de Silva Matos, pedreiro, aceitou fazer a obra “das naves da egreja” (note-se o uso do plural) na forma da planta escrita, pela quantia de 800$000 réis . A obra não estaria concluída em 17 de Abril de 1749 porque em escritura dessa data se refere uma esmola dada para o efeito pela Irmandade do Cordão.

Encimando o arco, sob a Coroa Real, deparamos com um escudo de fantasia da Ordem Franciscana assente numa cartela com volutas e folhas de acanto; o teto é ricamente decorado com pinturas em “trompe-l’oeil”. Por deliberação de 2 de Maio de 1843, foi decidido forrar a igreja, e o teto, que era “apainelado em altas molduras”, foi forrado a liso, abrindo-se uma inútil clarabóia que outro restauro, já nos nossos dias, se encarregou, acertadamente, de eliminar.

De valor são os azulejos de 1879 que ornamentam as paredes da igreja sob o coro alto: azulejos emblemáticos e estampilhados iguais aos que forram a Capela da Ordem Terceira, em que são usados como em-blemas o brasão da Ordem, o monograma da Virgem Maria e uma cruz e um cálice cruzados..

  

ALTARES DA NAVE

Desde os primeiros anos do século XVI, encostadas às paredes laterais, foram fundadas capelas que receberam os túmulos dos seus fundadores e eram administradas pelo seus descendentes. Essas capelas eram de diverso tamanho: só muito mais tarde se fez o seu alinhamento. São notáveis pela sua traça e execução os dois grupos de capelas mais próximos do cruzeiro, enriquecidas com talha dourada, com ornatos de frontões quebrados com volutas e contra-volutas, colunas torças e dosséis a embelezar os arcos.

Começando pelo lado do Evangelho e a partir do cruzeiro, temos:

 

CAPELA DE SANTO ANTÓNIO DOS MILAGRES 

 

A Capela de Santo António é a primeira do lado do Evangelho. Já em 22 de Janeiro de 1365 havia um altar em honra deste santo porque é referido numa escritura de venda com esta data. Este documento prova que o convento de S.Francisco, erguido depois da demolição imposta por D.Dinis, já tinha igreja em 1365, quarentas e três anos depois do apeamento do convento encostado à muralha da vila – muitos anos antes da carta de D.João I de 1400 atrás referida.

Em 1692, Torquato Peixoto de AZEVEDO, e em 1706 a “Corografia”, referem este altar. Em 1726, quando a igreja ainda não tinha sofrido a maior parte das obras que a desfiguraram, CRAESBEECK descreveu assim a Capela de Santo António dos Milagres: “No corpo da igreja, da parte do Evangelho, fica a capella do glorioso S.to António dos Milagres, toda de talha dourada e adornada com muitos trofeos de milagres do dito Santo, a qual foi instituida pello Doutor Diogo Lopes de Carvalho, Desembargador do Paço, do Conçelho d’el Rej D.Manoel, Senhor do Couto de Abadim e do de Negrelos.[...] Por detrás desta capella, que fica à face do arco, fica a capella interior, onde o Santo antiguamente estava, em a qual estão duas sepulturas levantadas metidas na parede".

Deduz-se do texto que em tempos recuados a imagem ocupava um espaço chegado à parede da igreja. No tempo de CRAESBEECK (1726) encontrava-se mais à frente, deixando atrás o espaço onde haviam sido colocados os túmulos dos instituidores da capela. Esse espaço servia de sacristia, como se depreende de uma nota manuscrita do Padre Ferreira CALDAS  onde se lê: “Neste mês [Setembro de 1880] demolio-se a antiga sacristia de Santo António que ficava por detraz do altar do mesmo Santo, e era nas suas paredes que se abria a janella de arco, por onde em 1710 tentou entrar um ladrão, ficando esmagado debaixo da tea d’arame, que resguardava os vidros da mesma janella. Esta sacristia tinha dentro dous túmulos antigos debaixo d’arcos de pedra, com um brazão simbolizando uma roza dos ventos com quatro meias luas nos angulos Vae agora ficar alinhada com o fundo da capella lateral de S.Gualter”. Esse brasão é inquestionavelmente o dos Carvalhos, e deve ser o que se encontra actualmente numa das paredes do claustro. Quanto à sacristia da capela, sabemos que tinha acesso através de uma porta aberta no transepto, devendo nessa altura ter sido entaipada, deixando de fora, os seus degraus, que ainda hoje podemos observar.

Chama-se a atenção para o facto de essa antiga sacristia possuir em 1710 uma “janela d’arco”, que um dos muitos restauros eliminou: as janelas quadrangulares que hoje vemos na parede lateral da igreja são, pois, adventícias, fundamentando as criticas ao último restauro por não ter ousado reconstituir as janelas de arco que outrora lá existiram.

A demolição dessa sacristia, ao permitir recuar o fundo da capela para o alinhar com o do altar de S.Gualter, revela que as capelas laterais não estavam antes alinhadas tal como hoje se apresentam. E também não tinham idêntica altura, pois, por escritura de 24 de Janeiro de 1750, Tadeu Luís Lopes de Carvalho Fonseca e Camões, administrador da capela, autorizou a Irmandade do Santo a deitar abaixo o forro da capela “e abaixá-la em rasão de ser ruim a fresta que se abrio por cima do altar”.

A imagem existente neste altar é aquela a que se refere o relato do “Milagre do Ladrão”. Era tão perfeita que, segundo consta, “um lebreu imaginando-a criatura vivente a investiu com latidos”.

 

ALTAR DE S. FRANCISCO

 

 

(antiga Capela de S.Gualter) – O segundo do lado do Evangelho, é um altar de talha doirada e policromada do século XVIII, e nela se venera uma bela imagem do Patriarca S.Francisco, de tamanho natural, que, segundo inscrição existente na peanha, foi feita em Roma pelo famoso escultor romano, Giuseppi Berardi, em 1883 (e não em 1888, como se lê em vários autores).

No tempo do Padre Torquato de AZEVEDO estava aqui a Capela de S.Gualter. Segundo CRAESBEECK, antiguamente estava encostada à parede da igreja, e nella estava hum tumulo de pedra dourado e pintado sobre columnas de pedra; e debaixo da abobada, outro tumulo mais pequeno de pedra, em que estavão os ossos deste Sancto, e por fora delle o letreiro, que dizia «Gualteri tegit hoc ve-nerabilis ossa sepulchrum». E depois os devotos do mesmo santo lhe fiserão huma nobre capella de talha muito magnifica, que a “Corografia” refere ser de pouca duração, por ter muita fabrica no alto della e pouco aliçesse pa-ra tanta machina; e primeiro domingo de Agosto do anno de 1577 forão nella trasladados os seos ossos, em hum sepulchro piqueno, que tem por fora o dito letreiro [...] Vesse no alto dessa fabrica outro letreiro, que os moradores desta villa lhe mandarão por em memoria de o tomarem por padroeiro della que dis: DIVO GUALTERO*D*F*D*VIMARAN*PATRONO*INSTAURATI*FETI*VOTO*III*ANNO*QUE*M*D*L*X*X*

VII*PV*F*C* (A S.Gualter, discípulo de S. Francisco, Padroeiro de Guimarães, em cumprimento do voto quatro vezes repetido, e no ano de 1577 o povo vimaranense fez edificar)”.

Esta capela estava separada da Capela da Porciúncula, mais abaixo, por um botaréu que os mordomos de S.Gualter fizeram demolir por contrato de 18 de Agosto de 1670, apesar das reservas dos frades do mosteiro. A Capela de S.Gualter, onde a sua Irmandade celebrava a festa do seu patrono a 3 de Agosto de cada ano, desapareceu com as obras levadas a efeito entre 1746 e 1749. Por isso, a Irmandade decidiu transferir as relíquias de S.Gualter para a Capela do Descendimento, situada no lado do Evangelho do transepto, como já se disse atrás, tendo previamente obtido a necessária autorização do seu administrador.

Em 1915-1916, a lápide do fontespício da capela jazia, desprezada, no pátio das escolas que a Ordem Terceira havia fundado nas dependências da igreja. Desconhece-se hoje o seu paradeiro. Quanto à lápide do sepulcro, sabemos que ainda existia em 1900, porque Albano BELLINO viu-a então à porta da cozinha do extinto convento. Com as obras realizadas posteriormente, perdeu-se-lhe o rasto.

 

ALTAR DE S. JOSÉ (antiga Capela de Nossa Senhora da Porciúncula) – O Altar de S. José, o último do lado do Evangelho, é de feitura recente, como se poderá avaliar pela sua pobreza, quando comparado com os altares já analisados. Por deliberação de 30 de Junho de 1892, foi aceite a imagem de S. José, oferecida por uma anónima por intermédio da Superiora das Irmãs Hospitaleiras em serviço no Hospital da Ordem, mandando que fosse colocada neste altar juntamente com a imagem do Senhor Morto, que estava no al-tar fronteiro. A imagem do Senhor Morto deu mais tarde lugar à de S. Gualter. Em pequenas mísulas veneram-se as imagens de Santo Amaro e S. Brás, de grande devoção entre nós.

Neste local existiu em tempos a Capela de Nossa Senhora da Porciúncula, descrita por CRAESBEECK nestes termos: “Segue-çe outra capella de N. Senhora da Porçiuncula, que instituio Maria Peixoto de Freitas, viuva de Antonio Dias Pimenta, em 22 de Março de 1629 [...] Jasem ambos no meio da ditta capella, em hum carneiro...”. No alto da dita capella, no friso da banda de fora, está “hum escudo de armas esquarteladas, muito bem iluminadas e pintadas com as armas dos Costas, Lemos, Tavoras e Pimentas”. Numa escritura datada de 1629 afirma-se que a Capela dos Pimentasestá na porta travessa da igreja, entre a Capela de S. Gualter e o altar das Chagas, saindo o corpo da dita capela a fora para os Carvalhos “por a traça que está ordenada”; a qual porta se tapará para esse efeito; e Simão Dias Pimenta mandará abrir outra porta travessa em lugar desta, abaixo do arco grande “que está debaixo do coro novo que ora se fez”.

No “Livro das Sepulturas”, de 1755, já citado, lê-se por sua vez: “entre o Altar chamado da Porciun-cula, e as grades de pao, q. repartem o corpo da Igreja dos Altares por hum, e outro lado junto ao arco do coro fica um carneyro ao comprido daquella coxia, e he de uso e posse do Sr. Luiz Pimenta, que foi de seos Ascenden-tes, q. fizeraõ aquella capella, q. tinha seo corpo pª o terrº e no tempo do P.M. Fr. Salvador da Guia sendo aqui Guardiaõ convieraõ em que se pozesse a face com os mais Altares, e o carnrº.”. São informações preciosas para a compreensão das alterações introduzidas nesta igreja nos últimos séculos.

 

ALTAR DA SENHORA DA CONCEIÇÃO (antiga Capela de Nossa Senhora do Ó) - O Altar da Senhora da Conceição é o primeiro que encontramos do lado da Epístola, abaixo do cruzeiro, e nele se venera a imagem de Nossa Senhora da Conceição que esteve na Capela dos Terceiros, de quem era padroeira. Pa-ra aqui se mudou quando a Ordem colocou nessa Capela a linda imagem que lá se encontra, obra de João de Afonseca Lapa, esculpida em princípios deste século. Diz Torquato de AZEVEDO que em 1692 a Capela da Senhora da Conceição estava no espaço entre os arcos da capela-mor e da capela lateral do lado do Evangelho – ou seja, onde hoje se encontra a imagem de Santa Clara - sendo administrada pela sua Irmandade.

 

O primeiro altar do lado da Epístola era em tempos mais recuados ocupado pela Capela de Nossa Se-nhora do Ó, que mais tarde veio a ser transferida para o segundo altar do mesmo lado. De acordo com o Padre Torquato de AZEVEDO, era Capela de Nossa Senhora do Ó administrada pelos seus confrades e estava anexa à Albergaria do Anjo. Esta capela foi instituída por Pedro Lagarto e sua mulher Margarida Afonso de Freitas: como não deixaram descendência, passou o vínculo para seu sobrinho, Rui de Freitas de Castro, sepultado também nesta capela.

 

ALTAR DA SENHORA DO Ó

 (antiga capela de Nossa Senhora da Embaixada) – No segundo altar do lado da Epístola está o retábulo de Nossa Senhora do Ó. No Tombo da Confraria de Nossa Senhora do Ó, feito em 1737, há uma descrição desse altar onde se lê que “na nave que fica ao entrar da igreja à mão direita para a parte do nascente, havia um altar aparelhado e dourado em que se dizia missa, no qual se achava a Árvore de Jessé, com doze reis por cada banda, de vulto, estofadas, e em cima da dita árvore, a meio, a imagem de Nossa Senhora do Ó, de vulto, levantada, dourada e estofada, com coroa de prata... o qual altar parte de cima com o altar de S.João, e da parte de baixo com o altar de Nossa Senhora da Embaixada” .

Sabemos que o culto nesta igreja a Nossa Senhora do Ó é muito antigo, pois no cartório da Ordem havia um testamento de 1427 feito por Francisco Geraldes com um legado a essa confraria.

Segundo Torquato de AZEVEDO, e depois dele, a “Corografia Portugueza” e CRAESBEECK, neste local existiu outrora a Capela de Nossa Senhora da Embaixada “anexa ao morgado, que instituio António Jorge da Guerra, que cazou com D.Anna Fagundes, filha de Balthezar Pinheiro Lobo e de sua mulher D. Maria Fagundes”. Segundo Artur Vaz-Osório da NÓBREGA, D.Ana Fagundes casou com “António Machado da Guerra, formado em cânones, administrador do morgado, com capela, de Nossa Senhora da Embaixada, no convento de São Francisco de Guimarães (instituído pelo licenciado António da Guerra, tio de sua mãe), senhor da casa da rua do Postigo, em Guimarães e mais bens de raiz junto da mesma vila, filho de João de Aroza Machado e de sua mulher Margarida Guerra”.

Existe uma escritura de 16 de Julho de 1632, através da qual Catarina da Guerra, cumprindo a von-tade de seu irmão, António Jorge da Guerra, obteve da Ordem de S.Francisco autorização para fazer uma capela “junto do botaréu que está junto do altar de Nossa Senhora do Ó”, em cujo altar desejava levantar um retábulo da Sacratíssima Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, e em cujo arco se poriam as armas dos Guerras com o letreiro que constava do testamento do referido António Jorge Guerra. Esse retábulo talvez representasse a Virgem recebendo a Embaixada do Arcanjo S.Gabriel, primeiro episódio do Mistério da Encarnação, e daí o nome de “Capela de Nossa Senhora da Embaixada” ou “Capela da Encarnação”. Foi transferido depois para o terceiro altar do mesmo lado da igreja.

 

CAPELA DA SENHORA DO SOCORRO (antiga Capela de S.Francisco e S.João Baptista) – O terceiro e último altar do lado da Epístola é dedicado a Nossa Senhora do Socorro e ao evangelista S. Mar-cos. A imagem da Senhora do Socorro pertencia à Irmandade do mesmo nome, erecta na igreja paroquial de S.Sebastião, existente no Toural. Por deliberação de 8 de Maio de 1892, essa irmandade foi autorizada a ins-talar aqui o seu altar e seu retábulo de talha, porque a igreja de S.Sebastião ia ser (como foi) demolida. Por baixo da imagem da Senhora da Piedade está um friso de talha representando S.Marcos, tendo aos pés um leão, que é o seu atributo.

Anteriormente, em 1726, havia neste mesmo local “a capella de S.Francisco e S.João Baptista, que fabricão os seos confrades”, no dizer de CRAESBEECK; e recebeu, em data que se ignora, o altar da Capela de Nossa Senhora da Embaixada, atrás referida, e com ele o brasão da família do seu instituidor, que coroa o arco da capela: nele se vêem as armas dos Pinheiros de Barcelos (um pinheiro arrancado e um leão rompante contra o tronco da árvore) e as dos Figueiras (cinco folhas de figueira).

 

OUTROS ALTARES

 Altar de S.Marcos – Além destes altares outros havia nesta igreja que desapareceram com o andar dos séculos. Um deles era o Altar de S. Marcos. Diz-nos o Padre CALDAS que “à entrada da porta principal ocupava à direita o vão dum antigo túmulo, que em 1501 pertencia a Lopo Vaz, ouvidor geral Entre Douro e Minho, e que actualmente está fechado ao nível da parede, forrada de azulejo”. Noutra obra sua, inédita, diz que em 1880 foi fechado a pedra e cal este altar “que ocupava o vão de um arco de um antigo túmulo, e o retábulo do mesmo S.Marcos foi colocado no antigo altar da Senhora ad Embaixada, inutilizando-se-lhe a pintura”. Como vimos, o seu retábulo passou para o Altar de Nossa Senhora do Socorro.

 

Capela da Senhora de Guadalupe – Havia em 1692, no tempo de Torquato de AZEVEDO, a Capela da Senhora de Guadalupe: tinha estado abaixo da Capela da Senhora da Embaixada, mas os seus confrades haviam-na já transferido para a Capela do Descendimento, no topo do transepto, do lado do Evangelho. E já aí estaria em 1688 quando os juizes da Irmandade de Nossa Senhora de Guadalupe, sita na Igreja de S.Fran-cisco de Guimarães, reuniram-se com alguns pintores de Guimarães e com eles trataram da possibilidade, requerida pelos pintores, de no altar dessa irmandade celebrarem o culto ao seu santo patrono, S.Lucas. Os pintores Manuel de Freitas Padrão, Duarte Ribeiro, Gualter de Freitas, José Antunes, Jerónimo Mendes e João Lourenço da Costa, além de outros artífices vimaranenses que se faziam representar por aqueles seis, “tinham tenção e vontade de venerarem o evangelista S. Lucas, por o terem por padroeiro da sua arte de pintura, e lhe buscavam lugar suficiente de um retabolo em que ele pudesse estar”. O retábulo que, por vias do contrato, se comprometiam a dar feito à Irmandade de Nossa Senhora de Guadalupe - condição para poderem usar do seu altar em S.Francisco para culto próprio - era apenas e só de escultura, com marcenaria dourada e pintada. O ouro de bate-folha utilizado no douramento do retábulo e metade do custo das madeiras, seriam cobertos pelos réditos da Irmandade de Nossa Senhora de Guadalupe. Essa capela ainda existia em 1801, pois consta do “Livro das Capelas”, dessa data, e a sua imagem consta do inventário feito em 30 de Maio de 1834.

 

Capela de S.João Evangelista – Em 2 de Junho de 1602 existia a Capela de S.João Evangelista, pois em escritura dessa data consta que Salvador Pinto de Mariz e sua mulher, Beatriz Machado da Maia, haviam reunido os bens necessários para fazerem uma capela onde teriam sepultura, e mandaram fazer nela um altar por lhe haver sido dado o altar de S.João Evangelistaque está no cruzeiro do dito mosteiro da banda da Epístola”.

 

Capela de Santa Anastácia – Dessa escritura consta também que os mesmos lá mandaram pôr um retábulo onde colocaram uma imagem de Santa Anastácia. Curiosamente, nos fins do mesmo século, Torquato de AZEVEDO afirmava que “na parede da parte da epístola fundou Francisco Ribeiro a capella de Santa Anastacia, de que é administrador Pedro Coelho de Miranda”. Provavelmente, teria mudado de lugar a capela de S.João Evangelista (a sua pequena imagem ainda hoje existe e está à veneração dos fiéis numa mísula do altar do Senhor da Piedade), e em seu lugar, a imagem de Santa Anastácia passaria a titular a capela fundada por Francisco Ribeiro. Mas não ficou lá por muito tempo, pois, uns trinta anos depois, CRAESBEECK dizia que essa capela havia sido mudada, passando a ser a quarta do lado da Epístola, depois do altar de S.Francisco e S.João Baptista.

 

Altar de S.João Baptista – Antes da edificação do grande arco do cruzeiro, este altar estava “encostado ao gigante donde estava o púlpito que agora se tirou para fazer o arco novo