RESUMO HISTÓRICO

10-08-2010 15:03

 

 RESUMO HISTÓRICO

 

 A história da fundação em Guimarães do primeiro convento franciscano foi relatada em 1656 por Frei Manuel da ESPERANÇA na sua “História Seráfica dos Frades Menores na Província de Portugal”. Dada a antiguidade da obra, o pormenor do relato e a credibilidade do cronista, é esse relato que aqui sumariamos.

Diz o cronista que S.Francisco veio à Península Ibérica em 1213 com o propósito de levar a Boa Nova do Evangelho aos mouros do norte de África, mas uma grave doença impediu-o de levar avante a sua cruzada e convenceu-o de que não era essa a vontade de Deus. Aproveitou, então, a oportunidade para, antes de regressar a Itália, fazer a sua peregrinação a Santiago de Compostela. À ida para Santiago, dizem uns, ou no seu regresso, afirmam outros, mas já em 1214, o Santo Patriarca entrou em Portugal e deteve-se em Guimarães. Neste burgo teria sido recebido por D. Urraca, esposa do rei D.Afonso II, “a quem buscou de proposito pera lhe encommendar a sua religião”. Em Guimarães foi acolhido com a tradicional hospitalidade em casa de um devoto, caridade que o Santo pagou generosamente, ressuscitando a filha dos donos da casa que entretanto falecera: milagre cuja fama ecoou por toda a região

Regressado a Itália, no capítulo geral realizado na Porciúncula em 1216 (ou em 1217, como defendem outros), enviou S.Francisco para Portugal frei Zacarias e frei Gualter, acompanhados de dois franciscanos, cabendo a frei Gualter o encargo de fundar um convento em Guimarães.

Partiram em Junho do mesmo ano, e ainda no mesmo ano chegaram a Coimbra onde foram recebidos pelo rei D.Afonso II. A rainha, que anteriormente mostrara seu afecto pela Ordem Franciscana, “gançou del-Rei D.Afonso, seu marido, que em Lisboa & Guimaraës pudessem auer dous logares, em os quaes os fraires, seruos de Deos, fossem criados da dita Rainha assi como de madre”. Separaram-se em Coimbra: com um companheiro foi frei Zacarias para Lisboa, e frei Gualter com o outro companheiro dirigiu-se a Guimarães. 

 

Reza a “Crónica Seráfica”, no seu capítulo XXXX, que, ainda em 1216, frei Gualter e seu companheiro fixaram a sua morada numa choupana que com ramos de árvores fizeram na encosta do monte de Santa Catarina (Penha), ao pé de uma fonte depois chamada Fonte Santa e Fonte de S.Gualter, designações que ainda hoje perduram. Viviam de esmolas e, devido à sua piedade e amor do próximo, eram muito estimados pela gente que habitava o burgo vizinho.

 

O PRIMEIRO CONVENTO

 

Não se conformaram os vimaranenses que os santos frades residissem tão longe e convenceram-nos a instalarem-se noutro local mais próximo da vila. Não repugnou aos frades esta mudança pois tornava-se-lhes mais fácil a difusão da mensagem franciscana e garantir a sustentação de um número crescente de reli-giosos. Por isso, ainda no mesmo ano da sua chegada fixaram-se num local mais próximo do burgo.

Não é difícil indicar o local escolhido pelos Frades Menores (termo que, por humildade, S.Francisco escolheu para os seus companheiros): além dos documentos citados na “História Seráfica”, outros há no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, em Guimarães, onde se encontra o topónimo “São Francisco o Velho”  que, como se lê no índice do Tombo I dos Testamentos da Colegiada, depois se chamou Minhotinho, termo que sobreviveu até ao nosso tempo.

Para lá se mudou S.Gualter, e aí foi sepultado em 1259, ano provável da sua morte. À sua vida, virtudes e milagres dedicou Frei Manuel da ESPERANÇA dois capítulos da sua crónica, pelo que será desnecessário referi-los aqui.

 

O povo do burgo acorreu com dádivas para a sustentação dos frades e para a edificação do seu convento. Frei António do ROSÁRIO enumerou alguns testamentos antigos guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, onde constam deixas para os Frades Menores de Guimarães, mas outros há que referem legados da mesma natureza.

  

O SEGUNDO CONVENTO

 

Refere o cronista: “foi entendendo Guimaraës quanto melhor lhe esteva a vizinhança do conuento, que a distancia delle, assi se resolueo em o trazer pera parto dos seus muros, donde os religiosos mais facilmente acodissem âs obrigações da caridade christaam”. Assim, em 23 de Novembro de 1271, na presença do alcaide-mor, Pero Rodrigues, e de muitos homens-bons, o juiz Mem Martins fez doação aos religiosos de S.Francisco “d’hum hospital, por outro nome Albergaria, no qual se recolhião os pobres que passauão de caminho, & por ser administrado pelo gouerno da villa se chamaua o hospital do concelho”. A entrada solene no seu novo mosteiro fez-se dois dias depois, a 25 de Novembro de 1271, tendo sido lavrado o respectivo auto de posse, donde consta que o hospital estava encostado aos muros da vila “prope portam quae vocatur de turre veteri”.

 

Nessa mesma noite, tentou o Cabido da Colegiada de Guimarães enriquecer a sua igreja apropriando-se do corpo de S.Gualter, há pouco falecido e tido já em grande veneração, sepultado em campa rasa no ermitério de São Francisco o Velho. Assim, no segredo da noite, tentaram os cónegos por todos os meios retirar o corpo do Santo da sua humilde sepultura, no que foram impedidos por uma força sobrenatural: milagroso facto que rapidamente constou pelas redondezas e induziu a comunidade franciscana a pô-lo em segurança, primeiro num sepulcro de pedra, depois num relicário que acompanhava os frades sempre que estes mudavam de residência.

 

Os devotos de Guimarães e região envolvente demonstraram a maior devoção por S.Gualter e pelos religiosos que se fixaram na sua terra, tendo chegado ao nosso tempo numerosos testamentos onde se estabeleciam legados para sustento dos frades e para a obra de construção do novo convento. Por isso mantiveram-se as deixas testamentárias.

 

A pureza do Cristianismo que os frades mendicantes (franciscanos e dominicanos) pregavam, o desprezo pela ostentação, a pobreza, a obediência e a castidade que praticavam, constituíam vivo contraste com a prática vivida por grande parte do clero secular da região e, designadamente, pelos cónegos e demais clérigos da Colegiada de Guimarães cuja apetência pelo dinheiro, que não vinha de agora, os documentos testemunham. O desvio dos réditos para as comunidades mendicantes e o ciúme do prestígio que estes granjeavam no seio da comunidade cristã vimaranense, levaram o cabido da Colegiada, com o apoio declarado do cabido catedralício de Braga, a criar aos frades os maiores obstáculos.

 

Já em 6 de Agosto de 1238, o papa Gregório IX havia intervindo, através das bulas “Sub religionis habitu”, e “Arbitrantes indignum”, encarregando o bispo, deão e mestre-escola de Orense de diligenciar para que cessassem os obstáculos postos à actividade apostólica e caritativa dos Frades Menores na diocese bracarense. Vinte anos depois, a 9 de Dezembro de 1258 (em vida de S.Gualter, portanto), o papa Alexandre IV, na bula “Ad nostram noveris”, queixava-se de que o clero de Guimarães, porque com pretexto da quarta fu-neral “leuauão ametade dos legados, que os defuntos deixauão em testamento, obrigando aos seus executores co a espada da Igreja por cësuras, & pelo braço secular com violencias; a o que se seguia outro aggrauo maior, como era privallos dos sacramentos em quanto não lha pagauão ou não offerecião caução. E assi cortado do sentimento remetteo ao Deão de Lamego hüa bulla, cujo principio he, “ad nostram noueris”, pera que os obrigasse a desistir da oppressão, que nos dauão”.

 

Os cónegos da Colegiada foram-se persuadindo que as esmolas dadas aos franciscanos defraudavam os seus rendimentos e recorreram ao deão de Braga, que governava a sé de Braga “sede vacante”, para que expulsasse os franciscanos da vila. Este moveu aos franciscanos as maiores dificuldades e perseguições que só terminaram por intervenção do rei D.Afonso III.

 

Esses obstáculos atingiram tal grandeza que “o juiz; & camara, que com tanto gosto tinhão dado o hospital, nos vierão pedir que o largassemos atè passar a tormenta, ou el-Rei com o poder do seu braço nos conseruar na posse delle”. De acordo com o auto lavrado pelo tabelião Vicente Eannes a 3 de Maio de 1272, os frades franciscanos foram forçados a abandonar o hospital do concelho, interrompendo a obra do seu convento e, com muito pesar seu, regressar à sua antiga residência em São Francisco o Velho.

 

Mas os vimaranenses acreditavam que os religiosos voltariam ao seu hospital e retomariam a obra do seu convento: pelo menos é o que se deduz de uma verba inscrita no testamento de Fernando Gonçalves, de 4 de Novembro desse mesmo ano de 1272, onde prevê uma dádiva de dez libras se fizerem o mosteiro no hospital, nada recebendo em caso contrário: “Item Fratribus Minoribus fecerint monasterium in hospitali X [libras] et si non fecerint nichilum detur eis”. É provável, contudo, que as dificuldades tivessem sido ultrapassadas rapidamente, devido à intervenção do rei D.Afonso III, o qual, “se mostrou tão offendido, que nos mandou logo repor donde nos tinhão lançado”. Segundo as contas de Frei Manuel da ESPERANÇA, o regresso dos religiosos ao hospital do concelho verificou-se cinco meses e nove dias depois de terem saído, ou seja, em 12 de Outubro de 1272.

 

Os frequentes apelos à Santa Sé e ao poder real por parte dos frades, vítimas do clero da diocese bracarense, deve ter incomodado tanto o cabido da Colegiada de Guimarães como os cónegos da sé primacial; e o incómodo transformou-se em alarme ao saberem que havia sido nomeado arcebispo de Braga o provincial dos franciscanos de Castela, D.João Telo. Temendo que o novo prelado viesse a patrocinar as posições assumidas pelos seus confrades, os cónegos da sé de Braga e a câmara municipal, aproveitando a situação de “sede vacante”, celebraram um pacto, em 20 de Março de 1279, na presença de um notário, comprometendo-se a não aceitar mendicantes na cidade e no couto, assumindo os cónegos o compromisso de arcar com as despesas resultantes de qualquer acção judicial que tivessem de empreender em defesa dessa posição

 

Em Guimarães, os Frades Menores não tardaram a sentir os efeitos da presença de um franciscano na sé bracarense, pois, em 22 de Fevereiro de 1282, o arcebispo D.Frei Telo, veio lançar a primeira pedra da igreja do seu convento, na presença do Bispo D.Fernando, do mestre-escola D. João Fernandes, ambos da antiga sé de Tui, de D.Domingos Esteves, arcediago de Braga, de D.Pedro Nunes, prior de S.Torcato, do D. Prior de Roriz e de muitos outros eclesiásticos. Essa igreja foi erguida perto da parede do hospital de Gui-marães onde moravam os frades, para oriente “circa parietem Ospitalis Vimarañ in quo ipsi fratres morantur ad orientem”.

O Prior e os cónegos da Colegiada de Guimarães reagiram imediatamente, embargando a obra. através do seu representante, para impedir que se levantasse nesse lugar, alegando que causava prejuízo considerável à Colegiada, porque era entrada e saída para uma quinta sua.

Seguiu o recurso para a Santa Sé, e embora a decisão tenha sido favorável à Colegiada, a questão re-solveu-se através de uma composição.

As obras do convento e da igreja não sofreram com o litígio, financiadas pelas esmolas que vinham de todo o lado, incentivadas pelo arcebispo D.Frei Telo que concedeu 40 dias de indulgência a quem, com esmolas, com o seu trabalho, ou com a cedência de carros para o transporte de pedra e madeira, ajudassem essa construção. Alguns testamentos, salvos da voragem do tempo, chegaram até nós e são conhecidos: outros haverá certamente, semeados pelos arquivos portugueses.

Além destas doações, há a considerar outras doações de diversa natureza. Diz o cronista: “huns deixauão estender por suas casas o conuento; outros no mesmo sitio & fora delle offerecião herdades; muitos pagauão os jornaes; outros trabalhauão em pessoa ou ajuntauão as achegas. De modo, que sobre casas e terras que nos deu a piedade christaam, assentamos toda a planta do conuento & lançamos hüa cerca muito larga até o rio de Couros, deixando na outra banda a quinta, que se chama «a Ramada», & tambem nos pertencia”.

 

A página seguinte desta história ocorre muito mais tarde, em 1322. “Foi caso que o Infante D.Afonso [...] rebellando contra seu pae Dom Dinys, tambem alterou o reino, combatendo alguns lugares, que pretendia fazer da sua obediencia. Com este intento poz cerco a Guimarães, que não obstante defender com valentia, & brio, contudo da parte dos dous conuentos, S.Domingos, & São Francisco, donde a gente do sobredito Infante, chegada mais aos muros, reforçaua os combates, se vio em grande aperto. Passou isto no principio do anno de 1322.... Mem Rodrigues de Vasconcellos, que gouernaua as armas, temendo outros encontros, informou a el-Rei do perigo em que então estiuera pela muita vizinhança dos sobreditos conuentos. E logo lhe foi inuiada ordem pera os lançar por terra, demarcando as distancias, & sitios em que ambos poderiam edificarse de nouo”.

Cumpriu-se a ordem régia, e os religiosos retiraram-se, desanimados, tendo um fidalgo da família dos Cunhas oferecido casas suas para se acolherem enquanto não erguessem o seu novo convento; e foi o es-tímulo e a ajuda financeira das gentes da terra e de fora dela, dos reis e de vários eclesiásticos, que os animaram a construir a sua nova casa.

 

 O TERCEIRO CONVENTO

 

Diz Gaspar ESTAÇO que o novo mosteiro “tornou-se a edificar aonde hora está, de licença d’El-Rey D.Joaõ Primeiro, dada em Braga em tres de Novembro da era de 1438, anno do Senhor de 1400; com condiçaõ, que naõ fosse mais chegado á Villa, do que o estava o de Saõ Domingos”.

Aí permaneceu a Ordem dos Frades Menores de S.Francisco até 1834, quando, criminosamente, por decisão pessoal do rei D.Pedro IV, contra a opinião do seu governo, foram extintas as Ordens Religiosas. Durante este meio milénio, os humildes seguidores de S.Francisco prestaram à Igreja e à população da vila e seu termo inestimáveis serviços, pela sua palavra fluente, pelo seu exemplo, sobretudo em tempos de epidemias que chegaram a dizimar toda a comunidade, e pela sua caridade em favor dos pobres e desvalidos.

 

Pertencendo à Ordem o terreno que ia da Torre Velha ao Rio de Couros (e até para além dele), foi o convento edificado em terreno seu, à distância estipulada no mandado real, em local fronteiro àquela Torre. É evidente que os frades não perderam tempo na construção da sua casa e é quase certo que nela utilizaram as pedras do convento demolido: não haverá, pois, grande ousadia em supor que os elementos góticos mais arcaicos que chegaram até nós tenham pertencido ao convento que D.Dinis mandou apear – a análise estilística não se opõe a tal conclusão.

A entrada principal do convento abria-se no átrio da igreja conventual, virada a sul, dando acesso, em baixo, ao claustro, às oficinas e à cerca; e em cima, aos dormitórios e enfermaria dos frades, bem como à igreja conventual e suas dependências.

O edifício sofreu, como seria de supor, importantes alterações no decorrer dos séculos, mas a entrada principal mantém a sua nobreza primitiva graças a uma série de pinturas de valor artístico e iconográfico que, depois de recentemente restauradas, recobrem as suas paredes: são duas telas assinadas de Furtado e datadas de 1735, representando D.Mafalda, primeira rainha de Portugal, e o a Veneração do Patriarca S. Francisco, (obras que vieram do Convento da Costa por ocasião da extinção das ordens religiosas), um Baptismo de Cristo, de autor anónimo, do século XVIII; pinturas em madeira, seiscentistas, de autor desconhecido, representando santos e santas franciscanos (S. Luís, bispo de Tolosa, S. Boaventura, Sta. Margarida de Cortona, S. Luís, rei de França, S. Pedro Mártir, S. Bernardino de Sena e mais três santos de duvidosa identificação).

 

CLAUSTRO

 

Provavelmente, o primeiro claustro do convento começou a ser construído ainda nos fins do século XIV e já existia a 14 de Agosto de 1355, porque nessa data, como se lê na Vimaranis Monumenta Historica , “na crasta do moesteyro de sam françisco”, o rei D. Afonso IV assinou a concórdia com seu filho D. Pedro, desavindo na sequência da morte de D. Inês de Castro. Há que repudiar a lenda posta a correr por A. L. de CARVALHO, segundo a qual essa concórdia foi obtida por mediação da rainha-mãe, a Rainha Santa Isa-bel (falecida muitos anos antes, em 1336): a mediação foi realizada por D. Beatriz, esposa de D. Afonso IV e mãe do infante D. Pedro.

O actual claustro é obra do afamado imaginário e mestre de pedraria vimaranense, Gonçalo Lopes, morador na rua da Caldeiroa, contratado para o efeito em 9 de Setembro de 1591 pelo fidalgo Gonçalo Dias de Carvalho. Em 1596, a obra estava por terminar, porque António Pereira da Silva contratou com o mes-mo Gonçalo Lopes a execução de dois lanços de pedraria nas crastas do mosteiro, em conformidade com a obra já feita, devendo estar concluída até Maio de 1597. Para o recordar, há na quadra do lado sul do claustro um letreiro gravado na pedra

O claustro dispõe-se em dois pisos apoiados em igual número de colunas toscanas ao gosto clássico, distribuídos por dez tramos. Ao traçar o plano do novo claustro, foi poupada a Sala do Capítulo existente na ala sul do primitivo claustro, debaixo do dormitório dos frades, que, pelo estilo, pertence à época da construção do convento.

 

 

SALA DO CAPÍTULO - A Sala do Capítulo é uma sala quadrangular, iluminada por uma janela, com teto de madeira, com acesso através de um arco gótico ligeiramente abatido apoiado em impostas que coroam pilares com chanfraduras. Ladeiam-na dois arcos idênticos mas mais levantados do solo formando janelas. Cada um deles contem no interior dois pequenos arcos ogivais, apoiados em três pares de colunelos de bases singelas, com capitéis decorados e ábacos muito desenvolvidos.

 

Nesta sala fora erigida a Capela de S.João Baptista, que em 1552 pertenceu a Isabel de Lima e seu marido, Rui de Besteiros, aí enterrados com um filho seu. Morrendo sem geração, foi entregue a capela aos frades que depois a deram a Gonçalo Dias de Carvalho, fidalgo do Conselho de Sua Majestade. Foi esta ca-pela a cabeça do morgadio dos Carvalhos, instituído em 21 de Janeiro de 1593, e nele se encontra o túmulo do fundador e seus descendentes. Foi este Gonçalo Dias de Carvalho o primeiro doutor legista português que começou a estudar nesta vila, quando os estudos estavam no convento de Santa Marinha da Costa, e o primeiro doutor que na Universidade de Coimbra recebeu grau. Do seu currículo consta que era muito rico, foi Desembargador dos Agravos, deputado da Mesa da Consciência e teve diversos cargos eclesiásticos. Foi fi-lho de João Afonso dos Quintos, a quem o Rei D. Manuel muito estimava, e prebendeiro da Colegiada de Guimarães, e de sua mulher D. Ana de Carvalho, irmã do doutor Gaspar de Carvalho, chanceler-mor do reino, do concelho do rei D.João III, embaixador do rei em Castela para tratar do casamento da princesa D. Maria com o Rei D. Filipe, o Prudente, tendo sido um dos testamenteiros do rei e senhor dos coutos de Negrelos e de Abadim. Faleceu em Lisboa a 25 de Outubro de 1598.

O seu brasão decora o exterior e o interior da capela e o seu túmulo está coberto com uma pedra armoriada com uma epígrafe quase apagada pelo atrito, onde se vêem as armas dos Carvalhos (uma estrela de cinco pontas encerrada numa caderna de crescentes).

Ao lado dessa sepultura, encontra-se outra, igualmente armoriada, do seu sobrinho e sucessor, António Pereira da Silva de Carvalho. Sobre a epígrafe estão esculpidas as suas armas: dos Pereiras (uma cruz), dos Carvalhos (estrela de oito pontas encerrada numa caderna de crescentes), dos Cerveiras (duas cervas passantes, uma sobre a outra) e dos Silvas (um leão). Faleceu em 18 de Abril de 1614.

Foi este fidalgo quem, como administrador do Morgadio dos Carvalhos, mandou fazer “dous cadros na crausta de baixo do mosteiro de Sam Francisco athe o sobrado da Baranda”, e na capela de S.João Baptista mandou pôr as armas dos Carvalhos, tendo encarregado desta obra o mestre Gonçalo Lopes, já referido.

Esta capela tinha a toda a extensão das paredes uma decoração a fresco datada de princípios do século XVI com cenas da vida de S. João Baptista. Era uma obra de enorme valor porque são raros os frescos que chegaram até nós e pelo subsídio que nos forneciam sobre a indumentária da época. Dela resta um painel com 2,37 metros de comprimento, representando a “Degolação de S.João Baptista”, exposto presentemente no Museu Alberto Sampaio.

Nela existiu uma imagem de Nossa Senhora da Conceição que no tempo do Abade de TAGILDE se venerava no altar-mor da igreja, à entrada do camarim.

 

 

CAPELA DE S. PEDRO E S. PAULO - Ao lado da Sala do Capítulo, a poente, existe outra capela brasonada. Em 27 de Julho de 1619, a Ordem cedeu o domínio e posse “da officina e casa que está no claustro”, confrontando com a capela do Capítulo, para nela Pedro Vieira da Maia levantar uma capela com seu altar e retábulo da invocação que quisesse. Em 21 de Agosto do mesmo ano, Pedro da Maia contratou com o pedreiro Barnabé Francisco a execução da respectiva obra, onde se previa a construção de três arcos de pedra, e mandou que a capela fosse dedicada a S. Pedro e S. Paulo, como decorre da inscrição que se distribui pelos três arcos da entrada.

Entre os arcos das portas de acesso à capela há dois brasões esquartelados com vestígios de pinturas: o da esquerda, com as armas dos Carvalhos, já referidas, e as dos Rochas (uma aspa carregada com cinco vieiras, estando a vieira do centro posta em banda); o da direita, com as armas dos Vieiras (seis vieiras), dos Maias (uma águia em voo abatido), dos Machados (cinco machados) e a dos Rochas (cinco vieiras, como já foi dito).

Dentro da capela existem duas sepulturas brasonadas e epigrafadas. Uma delas é de Pedro Vieira da Maia, que instituiu um morgado com esta Capela, e nessa sepultura se lê a seguinte inscrição, com abreviaturas e letras inclusas, geminadas e sobrepostas, onde se lê que “na Índia Oriental serviu Sua Majestade 28 anos de soldado, capitão e capitão-mor, passou quatro vezes o Cabo da Boa Esperança”. Sobre a epígrafe está o seu brasão com as armas dos Vieiras (seis vieiras), dos Maias (uma águia com a cabeça voltada e em voo abatido), dos Machados (cinco machados), e dos Rochas (uma aspa carregada de cinco vieiras).

A outra sepultura da mesma capela pertence aos pais do instituidor desta Capela: António Machado da Maia e sua mulher.

 

No centro do claustro há um jardim com um chafariz seiscentista de granito. Diz o Padre Torcato de AZEVEDO que esse chafariz era abastecido por água que D. Constança de Noronha mandara canalizar da arca de água da Torre dos Cães.